30.6.09

Então, era isso...
A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE
Capítulo 27 - A última noite

Uma longa fila se formava na rua, saindo do portão, no meio da quadra, em direção à Independência. Depois dobrava a esquina e seguia mais alguns metros pela calçada. Contei, por cima, umas 150 pessoas, a maioria com a maior pinta de quem nunca dantes frequentara aquela espelunca, inquietas como crianças na fila da montanha russa, os figurinos nada a ver, mauricinhas e patricinhos (ou vice-versa), prontos pra desfrutar a última noite do Velho Garagem. De alguma maneira, o antro se tornara inofensivo. Amanhã há de ser outro dia, livre desses depravados que já vão tarde, uma espiadinha lá dentro pra ver como era até que vem bem, se a gente for em bando fica mais seguro.

Ninguém morreu.

Eu pensava enquanto descia a rua desde o táxi em direção ao casarão, olhando o povo enfileirado. Foi mesmo muita sorte. Nem mesmo um pequeno incendiozinho, como prenunciavam falsamente os mais terríveis pesadelos do Ricardo. Escapamos ilesos, como diria a Space Rave, uma das atrações daquele Bailão Apocalíptico, ao lado da banda da casa (leia-se, dos donos). Se bem que ainda havia a última noite. Mas aí já seria um azar despropositado dar uma merda terrível tipo desabamento. Não. Os anjos estavam com a gente, só podiam estar. E lembrei da vez em que um jovem desembargador de carreia promissora se mudou pras redondezas e decidiu moralizar o bairro. Nada de inferninhos na região. Ficamos apreensivos, graças à forte influência política do jovem paladino. Contudo o rapaz teve sua promissora carreira subitamente interrompida. Em férias pelo Chile, morreu num acidente envolvendo um vulcão – até então inativo. Nosso anjo da guarda devia ser o Damien.

Cheguei em frente ao portão, alguns amigos ostentando um olhar apavorado de “meu deus, não vou conseguir entrar” se aproximaram pedindo a infalível liberação. Eu era todo amor aquela noite. Dentro da casa, senti o aconchego dos vários rostos conhecidos, sorrindo, e do calorzinho tradicional que fez com que o Tronho Crocco nos apelidasse de Bar Garrafa Térmica. Aquilo parecia até final de novela com todo o elenco confraternizando. Eu via garageiros dos mais diversos tipos: amigos da Velha Guarda, novos universitários, ex-groupies, junkies em recuperação, todo o pessoal das bandas, ex-jovens, cineastas experimentais, quadrinistas mal vestidos, donos de bares da Grande Porto Alegre, traficantes em liberdade condicional, médicos fora do plantão, estilistas anônimos, ébrios convictos, abstêmios em crise, gays, lésbicas & suspeitos, malas sem alça, enxadristas em férias, punks old school, skatistas hardcore, gostosonas, mucras, policiais disfarçados, mestrandos em Comunicação, artistas visuais, poetinhas, vendedores de incenso. A vida em toda sua diversidade. A música era alta e as pessoas pareciam querer se divertir como se não houvesse amanhã. Havia?

Mas um repuxo de negatividade flutuava em meio à onda eufórica da comemoração. Alguns amigos nos olhavam com cara de enterro, outros com nítido rancor e ainda tinha aqueles que verbalizavam todo seu apavoramento, a expressão máxima daquele sem chão em que suas vidas se apoiariam:

Filhas da puta.

Não me importava, estava convicto de que a venda do bar tinha sido um acontecimento tão importante quanto sua fundação. A cerveja, assim como toda e qualquer bebida disponível, acabou bem cedo naquela que foi a noite mais cheia na história da casa. A Space Rave fez um show longuíssimo, inapropriado pro clima de festa/enterro da noite. Em oposição, os Minimaus tocaram pouquíssimo, não lembro de uma nota só. Jamais fomos tão aplaudidos.

Acertamos a bilheteria com os COLunistas, que, creio, nunca tinham visto tanto dinheiro antes. Pagamos os funcionários, entregamos as chaves da casa pro porteiro, pegamos nossos discos e namoradas e fugimos com um maço de notas no bolso. Cinematográfico. Em nome dos velhos tempos, seguimos por 48 horas acordados. A droga da despedida. Não presenciamos o que aconteceu depois, mas os relatos que chegaram através do porteiro Jorge dão conta de que, numa catarse destrutiva, os clientes tentaram levar “um pedaço do bar pra casa”, conforme alguém tinha sugerido no release de divulgação da festa. Creio que alguns COLunistas portavam inclusive martelos de demolição. O balcão foi invadido e pilhado (só tinha garrafa vazia), os objetos de decoração, assim como algumas partes do estuque das paredes, foram removidos a unhadas e até as pás dos ventiladores e os fios de eletricidade foram arrancados.

O sol de domingo ia alto quando os últimos clientes saíram, entres eles o Zanella e o Diego Medina, abraçados, cambaleantes, rindo e chorando, papinho eu te considero. Enquanto o Seu Jorge trancava o portão, o Diego ajudou o Zanella a subir pela parede (?) e tirar a placa do bar, que ficava pendurada num espeto embaixo da janela, uma peça de ferro formada por duas mesas soldadas, pintada pelo Kbeça em meados dos anos 90, memorabilia de toda uma geração. Numa acrobacia bêbada, o Zanella conseguiu retirar a placa. Caiu de joelhos no chão e empunhou contra o céu azul a peça de colecionador que até hoje ele guarda em casa, a foto da façanha pra comprovar. O fim de uma era congelado num clique: Zanella, a placa e Seu Jorge, ainda segurando as chaves da casa depois da última noite.
Epílogo

Entretanto, como muitos fatos relacionados ao Garagem possuem uma natureza dúbia e enganadora, houve mais uma noite.

Recebi um telefonema no domingo, a festa ainda acontecendo lá em casa. Era uma mina da faculdade que havia marcado seu aniversário algumas semanas antes da venda do bar. Eu tinha esquecido completamente do evento e àquelas alturas já não me importava com nada. Dei o número do Seu Jorge e disse que, se ela quisesse, poderia pegar as chaves com ele, mas teria que comprar as bebidas porque não havia mais uma latinha de cerveja nos freezers.

Ah, e tem que limpar porque a faxineira só vai na segunda.

Pro meu espanto, ela topou. Mais tarde me contou que sua festa de aniversário foi “mágica”. Reuniu os amigos e ficaram tocando violão num Garagem à luz de velas e só deles. No repertório, as clássicas da ripongagem nacional. Curioso fim pra um bar que já foi chamado de punk.


24.6.09


O intrépido TRIO FRICTURA (Lio, Dregus & Rafahell) e seu fielescudeiro Yog Mars retornam ao Cabaret do Beco (Independência, 590) pra mais um combate sonoro turbinado com muito pop, punk, funk, rap, disco, eletrônica eetnobeats. Sexta-feira, 26/06, a partir das 23h. Ingressos no local aR$20. Ou a R$12 pela lista amiga (informe-se).

15.6.09


Strictly disco night:
Sábado, Casa ao Lado, 22h

11.6.09

A FANTÁSTICA FÁBRICA
Capítulo 26 - Last days

O resumo dos últimos capítulos:

Eu era um bancário infeliz com uma bela coleção de discos e o cabelo comprido emplastado de gel e penteado pra trás. Mas naquele primeiro dia na casa, na primavera de 92, com o pé encravado na madeira podre do assoalho, os fantasmas não me preocupavam. Coloquei uma coletânea dos Sex Pistols, aquela que tem um cocô na contracapa. Saímos do bar e sentamos na frente do casarão, bem na porta da lavanderia. Um baseado importante na minha vida. O primeiro show aconteceu exatamente uma semana depois da inauguração: Graforréia Xilarmônica. Numa das paredes do bar tinha um desenho de um casal dançando e se beijando, de suas bocas escancaradas saíam enormes línguas vermelhas que se enroscavam num trançado vertical. Um beijo muito louco, como na música dos Mutantes. Tudo aconteceu muito rápido. Ficamos olhando o cara lá de cima, corpo estirado, a cara grudada no chão, nenhum sinal de vida. Não apenas anjos vinham nos fazer visita. Exus, cavalos, pombajiras e outros encostos também apareciam por lá seguidamente. Além do stress com os bandidos, tinha o stress com a polícia. Uma cláusula esquecida lá no finzinho do contrato garantia que, em caso de rompimento não-amigável da sociedade, haveria o prazo de 6 (seis) meses pra realização do inventário da empresa. A falta do alvará, esse era na verdade o problema. O estúdio do Garagem era feio, fedorento e com equipamentos meia-boca. O trabalho era um pé-no-saco. No auge do verão eu chegava a levar televisão e vídeocassete pro bar e ficava assistindo a favoritos como o recém lançado Pulp Fiction; o clássico do humor negro Doutor Fantástico ou um pouco de putaria psicodélica como Garganta Profunda, isso quando eu não tinha que trabalhar na portaria, porque no auge do verão a gente dispensava até o porteiro. Cocaína é uma merda. O Edu K perneta era um notório mala da noite roqueira. O apelido adivinha do duplo fato da figura ser um perneta que se auto-proclamava o Edu K. Faltava uma semana pra inauguração do Garagem Hermética Sushi Bar, em itálico, pra reforçar a piada. Tempos de prosperidade aqueles. Breves, mais ainda assim tempos. Os after se prolongavam até uma, duas da tarde. O sol assando a rua enquanto a gente seguia trancado lá dentro numa atmosfera controlada de fumaça de cigarro e cheiro de ceva azeda. O Júpiter era o centro solar daquela galáxia de loucos. Os punkids sentavam na calçada em frente ao bar bebendo vinho de garrafão, não entravam até que o show começasse e caíam fora logo que acabava. Vomitavam antes de sair. Tomei fôlego e rumei pra dentro do bar, não sem antes cumprimentar vinte pessoas, dar pegas em três baseados e recusar pelo menos uma oferta de pó. Era uma noite agitada, mais uma edição da Full Moon Party, a festa de música eletrônica mais badalada do Garagem. O Cinemeando no Garagem acontecia uma vez por mês no pátio da velha casa, simultaneamente à ferveção da festa, com música alta, bebedeira, pegação e o de sempre. Um gordinho bêbado tinha despencado da janela do bar até o chão do pátio: ploft! Um episódio histórico do Brasil Imperial empresta seu nome pro evento-chave na decisão de vender a PORRA DESSE BAR de uma vez por todas. E a gente se habitou a ver aquela figura circulando pelo pátio da casa de pijama e pantufas. Os porteiros se acham as pessoas mais importantes num bar, mas isso eu não acho, eu tenho certeza. Grande festa.

*

A gente adentrava os oito anos de gente da noite profissional – com carteira assinada isso daria um quinto de aposentadoria – e o saco prestes a explodir. Não tinha sobrado um pingo de glamour e ficava cada vez mais difícil se divertir naquela repetição enfadonha de sex, drugs and etc. Pra ser sincero, o sex nunca cansava mas as drugs e o etc já não eram mais as prioridades como outrora, nos idos de 1992, quando a gente tinha inventado aquela maluquice do bar e as pessoas mais velhas & sensatas diziam, agourentas, vai se dar mal. Estariam elas certas no fim das contas? Eu estava me dando mal pra caralho. Me sentia acorrentado naquele barco à deriva, prestes a afundar. Depois de quase uma década de negócio, não tinha guardado um centavo sequer, vivia no vermelho, meu único patrimônio era o nome do bar, que, aliás, era um plágio. Meu círculo de amigos se restringia a bêbados chatos, músicos fracassados, drogados compulsivos, minas histéricas e malas de todo o tipo. As conversas de boteco, ano após ano, iam me deixando cada vez mais burro, incapaz de articular o pensamento em argumentos racionais que não caíssem na dialética gaga dos muito loucos, os papinhos alusivos e abstratos, tipo sei lá, entende? Não suportava mais as ceninhas e brigas e bebedeiras de noite após noite, das bandas chatas que se multiplicavam em proporção geométrica, do eterno perrengue financeiro. Dava uma canseira ter que pensar numa nova maneira de sair do buraco, como pagar as contas que se acumulavam nas gavetas do escritório, nas constantes reformas que a casa velha demandava a todo momento. Definitivamente a carreira de empresário da noite não era o que eu queria para mim. Ao mesmo tempo não podia desprezar o trabalho que tinha feito até então, o know how, a contribuição pra cena, a rede de contatos e blablablá. O underground era o meu habitat, por lá eu circulava rastejando com destreza. Não poderia almejar sair voando de uma hora pra outra, asinhas de fora, flutuando nas nuvens do mainstream. Vender o bar era muito difícil, não só porque a gente suspeitava que quase ninguém quisesse comprar, mas também porque não podíamos vender pra qualquer um, a coisa tinha que ser certeira. Também sabíamos que a venda não podia ser anunciada de qualquer jeito, tinha que haver uma estratégia, uma ação meio secreta porque no momento em que o público soubesse que o bar estava à venda seria o nosso fim. A gente precisava manter a casa por cima pra não melar a venda, não acelerar a morte mal anunciada. Colocamos um anúncio no jornal, era um antianúncio que só poderia dar numa não-venda. Um exemplo em Publicidade e Propaganda de como não se faz. A gente não revelava o nome do estabelecimento nem o endereço. As informações nunca iam direto ao ponto, eram sempre vagas, tipo “casa estabelecida na cena roqueira, arredores da Independência”, quase uma charadinha. Quando alguém ligava, a gente continuava sem dizer o nome e o endereço do bar, buscando informações sobre o comprador, sobre sua idoneidade under, até que a pessoa acabava desistindo da arenga. A gente queria mas não queria.

Enquanto isso, a peteca não podia cair e tínhamos que seguir inventando eventos e festas que agitassem a cena, haja saco. Quando uma turminha de universitários nos procurou querendo fazer a festa do fanzine que produziam, topamos na hora. Esse era o público perfeito, os novos jovens. Os Bailões do Cardoso acabaram se tornando um dos eventos de maior sucesso nos últimos anos do bar. Particularmente, eu não compartilhava muito do humor daquela turma e não gostava dos sons que eles curtiam. Mas via neles uma nova geração tentando agitar a pasmaceira da cidade, criar novos caminhos, Porto Alegre parecia não ser a mesma província de uma década atrás. Era uma província diferente. No fundo, eu ficava orgulhoso que aqueles meninos tivessem escolhido o bar pra fazer suas festas. Da turma do COL, conhecia a Clarah desde os tempos em que ela era uma groupie peituda (devia ter uns treze anos) e já simpatizava com a porralouquice da menina. O Mojo também era garageiro confirmado, daqueles que iam curtir o bar nas noites vazias de inverno e em shows de metal, o Mojo é metaleiro que eu sei. Estava ligado nele há tempos, já tínhamos conversado sobre Oscar Wilde na salinha dos fundos uma vez. A primeira data que oferecemos pra fazerem a festa foi uma segunda-feira. Acertei todos detalhes com o Pilla, um cara com quem simpatizei na hora, e quando cheguei pra abrir o bar, às onze da noite, ele já esperava no portão com uns livros que sorteariam durante a festa. O freezer estava desligado desde a manhã de domingo e naquela noite de segunda a cerveja foi vendida, com otimismo, fria. Ironicamente, graças ao padrão aleatório do nosso rodízio de trabalho, só fui a mais um Bailão do Cardoso (mesmo assim acabei pagando o pato pela desconfiança dos COLunistas de que eram lesados na bilheteria, quando, um pouco depois da venda do bar, fui agredido pelo Hermano, um dos mais robustos e menos talentosos do grupo, cúmulo da ironia!, no próprio Garagem – o fim de uma era, de fato). Logo depois acabei ingressando no curso de Jornalismo (eu queria voltar a estudar ma non troppo) e virei bixo de muitos daqueles guris. Daquele núcleo de amigos criativos e talentosos sairiam alguns nomes destacados da literatura brasileira contemporânea, como Daniel “Mojo” Pelizzari, Clarah Averbuck e o Fernando Sabino da geração 00, Daniel Galera. E, claro, o André “Cardoso” Czarnobai, um ruivo figuraça e boa gente cuja profissão atual, li esses dias, é de “consultor criativo”, não parece o emprego perfeito?

Então o Ricardo começou a trabalhar novamente com tecnologia e publicidade, um trampo que ele tinha abandonado quando abrimos o bar, e aí passamos a ter outras atividades além daquelas relacionados ao mundinho estreito da noite. Só nos encontrávamos nas reuniões de segunda e até paramos de ensaiar com a banda. Novos ares. Na faculdade, passei a conviver com pessoas cinco, seis, sete anos mais novas que eu, um povo ávido por descobertas e discussões, pessoas que acabariam se tornando meus melhores amigos. Essa turminha passou a freqüentar o bar e foi como um último lampejo. Certamente desfrutaram bons momentos no velho casarão.

Eu era uma toupeira tecnológica mas o Ricardo estava superinserido no mundo digital que começava a revolucionar o mundo. Ele desenvolveu um site pro bar e inventou a festa Mp3 Delícia, com a parceria do Diego Medina, nosso amigo hypado do período. A dupla de ruivos, mais a Polla e o Jaspion discotecavam num PC instalado no palco, algo realmente muito novo pra Porto Alegre de 1999, pauta pra capa de Segundo Caderno. Também sempre rolava uns showzinhos da banda Os Massa, mais um projeto do Diego, que parecia ter o toque de Midas, tudo que ele tocava virava cult.

E assim a gente mantinha umas festas legais no calendário pra compensar as noites vazias de dia de semana, os shows falhados e o tédio geral. Duas ou três noites por mês em que tudo ficava divertido de novo e eu podia sair do bar de manhã cedo, bêbado e feliz, com o dinheiro do aluguel salvo. Quando se tem pouco, qualquer coisa já é alguma coisa. A presença dos amigos também era sempre reconfortante, quando apareciam pruma visitinha no nosso isolamento no escritório (chegou um ponto em que não saíamos mais do escritório, a loucura da noite transcorrendo sem que fôssemos até o banheiro, o xixi a gente fazia numas garrafas de cerveja vazias, paranóia pura de encontrar algum chato que nos pedisse uma liberação, bebida fiada, desconto, quem não é visto, não é lembrado), daí o amigo batia, noc, noc, e geralmente contava o que estava acontecendo lá fora, alguns ofereciam algum mimo, outros vinham pedir carinho, assim é a vida. Mas os melhores amigos eram aqueles que apareciam naquelas noites falhadíssimas, em bando, e sentavam nas mesinhas dos fundos e baixavam ceva atrás de ceva, pouco importando se não houvesse ninguém além deles mesmos, curtindo o papo, o fumo e o som. Lembro do Diego Medina nos salvando de vários fracassos, garantido o salário do Seu Jorge em noitadas que duravam até o sol nascer, regadas a cereveja e conversa fiada.

Mas no fundo havia essa desesperança, tipo loser, soy un perdedor/so why don’t you kill me. O Beck tinha sintetizado poeticamente o espírito dos anos 90. A gente se sentia meio uns trastes sem perspectivas, sem desejo de nada, se nos matassem não faria diferença. Nos definíamos pelo que a gente não era, pelo que a gente não queria, mas parecíamos incapazes de propor alternativas ao grande NÃO que a gente vivia dizendo. Pra nós sempre tinha bastado viver naquele mundo paralelo, lentos numa nuvem de baseado ou acelerados numa trilha de cocaína, tanto faz, a inércia sempre nos acompanhava. Vencer a inércia era o desafio. Eu já considerava um mérito ter conseguido voltar a estudar (ainda que fosse Comunicação) depois de anos só me emburrecendo com as conversas de boteco. Talvez fosse um começo. Mas ainda era pouco.

No início de 2000 a Tequila Baby (que havia feito seus primeiros shows no Garagem ainda quando era uma banda new wave tipo Blitz, isso lá por 93), agendou uma temporada no bar. Quatro shows em um mês. Aquilo iria nos ajudar a sair um pouquinho da lama, mas, logo na primeira noite, a paulada na cabeça, não ia ser fácil. Uma equipe de fiscalização da Secretaria do Meio Ambiente fez uma visita naquela noite e interditou nossa aparelhagem de som. Aparentemente tinha sido feita uma medição sonora em função de reclamações de vizinhos e nossa condição era irregular.

Interdita, disse o fiscal.

Mas o que ele não sabia é que o PA de shows não era o mesmo que o do som mecânico. Como só um dos equipamentos foi interditado (o do som mecânico) o show da Tequila Baby aconteceu conforme planejado, com discotecagem do incansável Dj Shufle, instalado na beirada do palco, acompanhado de seu cd player carrossel e cinco boas coletâneas. A noite transcorreu com aquela apreensão no ar, o cagaço de que a qualquer momento os fiscais pudessem voltar e nos desmascarar. Ou pior: multar.

No dia seguinte, sol causticante de verão, eu dentro de um ônibus apinhado, voltando da reunião com os funcionários da SMAM que tinham me informado que o bar seria interditado definitivamente se eu não cumpríssemos as determinações que a Secretaria impunha. Basicamente teríamos que fazer uma nova vedação acústica e o uso do pátio, que já era vetado mas a gente descumpria na maior cara dura, passava a ser terminantemente vetado. Se voltássemos a usá-lo, correríamos o risco de ter nosso alvará confiscado. As perspectivas eram tenebrosas. Como levantar o dinheiro pras reformas se não podíamos usar o pátio externo, o maior atrativo do bar nas calorentas noites de verão? O bar sem o pátio perderia todo seu charme. Além disso, já não tínhamos mais disposição alguma pra queimar neurônios tentando lançar uma nova picaretagem-salvadora-de-última-hora (por exemplo: o Garagem Hermética Trattoria) que nos erguesse novamente do fundo do poço. Sem falar nas contas atrasadas que se acumulavam na gaveta da mesa do escritório, remotas chances de quitação. Aquele parecia ser o fim. The end. Finito. Kaput. Eu me sentia miserável, a bordo do ônibus lotado, voltando da reunião naquela tarde infernal. Entrando da vida adulta como universitário tardio sem um tostão no bolso (e cheio de dívidas), proprietário de um bar decadente prestes a falir. Se ali mesmo dentro do ônibus alguém me oferece uns trocados que quitassem minhas dívidas eu passaria o bar adiante, não importando a idoneidade under do comprador. Eu delirava com qualquer possibilidade fantasiosa de sair da merda, a miragem do desespero.

Foi nessa época que o Ricardo jogou a toalha e eu fiquei cuidando do bar sozinho. O trabalho com publicidade começa a lhe render uma grana e tomar muito tempo, o Garagem era um estorvo pra ele. Como ainda precisava desesperadamente do pouco dinheiro que rendia o boteco, aguentei no osso. Combinamos que ele trabalharia de dia, em algumas funções administrativas, e eu me encarregaria do funcionamento da casa, à noite, alguém tem que fazer o trabalho sujo. Me virava entre a vida de empresário da noite falido e as aulas na faculdade, que eram, a maioria, à tarde. Curtindo meus novos amigos que descobriam o Garagem com um entusiasmo que eu já tinha perdido.

*

Em agosto, dois meses antes de completar oito anos de serviços prestados ao roquenrol, o Bar Garagem Hermética foi vendido. O primeiro interessado idôneo foi o Toninho, que já havia comprado o Elo Perdido do Renatão. O Toninho chegou a levar um arquiteto pra orçar as reformas que teria que fazer na casa. Ficou de dar uma resposta na semana seguinte e nesse meio tempo recebi o telefonema do Fernando, um cara que tinha duas lojas de discos na Galeria Chaves. Nos reunimos prum café e o Fernando discorreu por horas sobre todas suas ótimas intenções em relação ao Garagem, um patrimônio cultural porto-alegrense, segundo ele. O cara parecia completamente idôneo, apesar da falastrice. Tinha como parceiro de negócio o Pio, dono do tradicionalíssimo Zelig (idoneidade pouca é bobagem) e, pelo jeito, dinheiro pra investir. O valor que pedimos pelo ponto e o nome do bar foi irrisório. A gente sabia que o novo proprietário teria ainda que gastar muito em reformas na velha casa.

Vinte pila e é teu.

*

Depois de uma reforma que durou meses, o Garagem reabriu sob nova direção. Como quem quer esquecer um passado negro, o Ricardo não apareceu na reinauguração. Minha curiosidade falou mais alto e não pude evitar um enorme estranhamento ao entrar na velha casa, cujas paredes haviam sido todas postas abaixo. O antigo e podre banheiro virara um limpo corredor e, na salinha dos fundos, dois banheiros novinhos tinham sido construídos. O acesso ao pátio estava vetado. Curioso é que o ambiente interno parecia menor.

Com o passar do tempo se tornou clichê relembrar do Velho Garagem e de como as coisas eram melhores, antes. Saudosismo é uma merda. Mas não dá pra negar que o bar perdeu muito do espírito que o moveu por quase uma década. Eram outros tempos afinal, outras circunstâncias, outras pessoas. O tipo de coisa que só acontece uma vez. E que um dia tem que terminar. E a gente já tinha aprendido com todos os mortos célebres do ronquenrol que não dava pra viver o tempo inteiro dos excessos, impossível seguir sempre na base da inconseqüência, da irresponsabilidade e da embriaguez, a vida não comportava. 24 horas por dia, durante quase dez anos, tínhamos vivido intensamente o sex, drugs and etc. O teenage spirit que exalava dos nossos tênis e coturnos surrados era autêntico.

A questã é que o chulé do sapato do novo dono era outro. E nada mais será como antes.

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8.6.09



I've got you under my skin

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26.5.09

A FANTÁSTICA FÁBRICA
Capítulo 25 - Bailão dos jovens
Seguinte, Cardoso, como já havia comentado contigo, tô na reta final do livro e recorrendo à memória dos amigos, porque a minha já era. No feriado quero me dedicar ao capítulo 25 BAILÃO DOS JOVENS, então gostaria, que, se possível, tu me respondesse (brevemente, sem frescuras) as perguntinhas a seguir. Desde já, agradeço.

Beleza, beleza. Tá na mão:

1) Breve história do COL.

A primeira edição saiu em outubro 1998, durante a greve das universidades federais. Era uma época estranha, porque quase ninguém trocava telefone, mas todo mundo trocava e-mail nas primeiras semanas de aula da Fabico. Comecei a parada ainda sem nome, meio que só pra manter contato com uns 10 ou 15 amigos que tinha feito no começo do mês. Um deles, o Felipe Becker (sim, ele mesmo, MARIDO da Ana) foi quem sugeriu que eu devia adotar o nome CardosOnline. Na primeira semana, o COL saía todos os dias e era escrito só por mim. Aos poucos, comecei a incluir os e-mails que os amigos mandavam em resposta, e alguns começaram a escrever coisas parecidas com o que eu escrevia. A coisa foi mudando de figura, e lá pela segunda semana o Galera me ligou e propôs que fizéssemos um fanzine por e-mail. Convidei o Träsel, ele convidou o Pilla, e a rede de contatos começou a se expandir. Um dia, bebaço, o Pilla conheceu o Mojo no Garagem e encheu muito o saco dele por causa do COL. O Mojo conta que ficou tão puto com aquele piá bebum enchendo o saco que foi no site e assinou pra ver qual é: aí GAMOU. Leu uma edição, baixou as outras, me escreveu um e-mail e pediu pra colaborar. Algum tempo depois, quem começou a colaborar foi o Hermano, não lembro exatamente por que nem como. Sei que passaram a ser os colaboradores mais assíduos (agora o COL era publicado toda terça e quinta) e também os melhores. Galera e eu decidimos convidá-los a fazer parte do staff. Muitos meses depois, decidimos que tínhamos que ter uma menina no time. Convidamos várias, nenhuma quis. Então a Clarah voltou de uma temporada em São Paulo e o Mojo (que a conhecia de outros carnavais) meio que a INTIMOU a virar COLunista. Pra fechar em um número PAR (somos meio obsessivos meio místicos) acabamos convidando o Caon, que além de ser COLaborador dos mais ativos, publicando texto em toda edição, ainda por cima sempre dava alta mão nas organizações dos bailões. Na verdade, se não fosse por ele, muitos bailões talvez nem tivessem rolado.

2) Como surgiu a idéia da festa, e por que no Garagem? Quantos bailões foram ao todo? Fala um pouco sobre eles.

Aqui vai o texto original, escrito pelo Galera e publicado no site do COL na época:

"Um dos conceitos mais pregados pelo COL sempre foi a chinelagem. Logo, era inevitável que surgisse a idéia de realizar uma festa muito chinela para reunir os assinantes do fanzine. Pensamos no assunto pela primeira vez no final de 1998, quando o staff do COL ainda era formado por 5 colunistas e os assinantes – cerca de 100 – eram, na sua maioria, moradores de Porto Alegre. Idealizamos então o primeiro Bailão do Velho CardosOnline (homenagem e brincadeira com o verdadeiro Bailão do Velho Cardoso, situado na Av. Bento Gonçalves). O local eleito para a confraternização não podia ser outro: o Garagem, clássico reduto do underground porto-alegrense, habitualmente frequentado pelos colunistas do COL.

O I Bailão do CardosOnline aconteceu no dia 25 de janeiro de 1999, uma segunda-feira chuvosa em plenas férias de verão. Mesmo assim, aproximadamente 150 pessoas, boa parte delas assinantes do fanzine, compareceram ao Garagem para conhecer o Cardoso e os colunistas, tomar um tragão, fazer muita merda e bodear no sofá. A festa contou com discotecagem dos COLunistas, cerveja a R$1,99 e uma antológica jam session no chão do Garagem.

A partir daí, o Bailão teve várias outras edições, todas elas um grande sucesso, lotando o Garagem e trazendo atrações como apresentação de bandas alternativas de Porto Alegre, saraus literários, sorteio de brindes, e discotecagem dos colunistas e do Dj Drégus, combinando-se numa mistura poderosa de rock alternativo, techno, eletrônica, britpop, hip-hop, funk e algumas coisas mais esquisitas. O Bailão se tornou uma forma de divulgação do fanzine e aproximação entre seus leitores, além de evento confirmado na cidade.

A partir do II Bailão do CardosOnline, o staff do COL passou a preparar e distribuir gratuitamente os COPs (CardosoOnPaper), versões impressas do fanzine, para fins de divulgação. Além da estréia do COP, a festa contou ainda com uma chamada na MTV, o "Putaria ao vivo" (Mojo e outros representantes da Bitch Djeneration lendo textos com acompanhamentos nonsense-minimalistas, coisa pra macho), e shows das bandas Tábula Rasa e Hamsterdan. O terceiro Bailão foi marcado para 12 de junho, e foi o primeiro Bailão temático: Bailão dos Namorados. Público de mais de 200 malucos, distribuição de camisinhas, sorteio de pernoites em motéis, COP#2 e estréia do fornication lounge: a salinha dos fundos do Garagem foi forrada com colchões e almofadas, e a música ambiente consistiu em múltiplas execuções de “Sexual Healing” e outros clássicos mela-cueca. O IV Bailão do CardosOnline aconteceu sem nenhuma atração especial. O quinto Bailão foi novamente temático. O Bailão Primaveril do CardosOnline trouxe como atração principal a guitarreira nerd da banda Winston. Além disso, o staff do COL conseguiu trazer direto de Esteio, para seu show de estréia, o revolucionário Toni da Gatorra, o profeta da modernidade sonora, numa apresentação antológica que incluiu dupla execução de seu sucesso "Paz". Na salinha dos fundos, os colunistas Galera e Mojo atacaram de Cj (cassete-jockeys) na De:existência – arrasta-pé para angustiados e afins, tocando apenas o melhor da música depressiva, dos b-sides do Radiohead a trip-hops obscuros garimpados pelo Mojo em mp3. O sexto Bailão, devido ao total desleixo dos colunistas na organização do evento, foi batizado de O Pior Bailão do CardosOnline. Contudo, a festa teve uma lotação de mais de 300 pessoas, e foi um dos mais animados e eficientes Bailões do COL. Distribuição do COP#5, discotecagem do Drégus indo de Pavement a Reginaldo Rossi, e na salinha dos fundos a Re:De:xistência – reedição do templo da música depressiva.

O sétimo Bailão, o primeiro do ano 2000, ocorreu dia 7 de Abril, com o título de Fornão Dançante do Cardosonline, devido à previsão de calor insuportável que se estabeleceria no interior do Garagem. De fato, a festa foi quente, úmida e apertada, com shows impecáveis de duas das melhores bandas gaúchas: Tom Bloch e Irmãos Rocha!. O oitavo Bailão: o Bailão dos Solteiros Cardosonline, uma ode à confraternização carnal sem compromisso, às groupies e aos solteiros desse mundo. E outra vez nos vemos todos assistindo aos shows da Superphones e da Video Hits e pensando como é afudê ou que merda que é aquela música ou até aquela banda, tomando aquela décima segunda ceva antes de sair cambaleando Barros Cassal afora até um táxi, carro ou casa.

E no dia 19 de Agosto do ano 2000, o velho Garagem Hermética as we know it encerrou suas atividades, fechando para reforma e trocando de dono. Para terminar uma era de chinelagem em grande estilo, a última festa do Velho Garagem não podia ser outra: um Bailão do COL. O Bailão do Apocalipse Cardosonline trouxe shows das bandas Space Rave e Minimaus (a banda dos ex-donos do bar) e, na pista, o drum n'bass do Organizers – projeto de música eletrônica do Cardoso. Mas o destaque da noite foi a fila que se formou na entrada do Garagem, que chegou a dobrar a esquina, transformando um dos mais célebres redutos underground de POA num lugar pop, pelo menos por uma noite. Não sabemos o número exato do público presente, mas certamente não foi menos do que o dobro do número oficial comunicado ao staff. A cerveja esgotou lá pelas quatro da madrugada, não apenas no Garagem, mas também no Bambu's, o famigerado bareco da esquina onde a galera costuma se turbinar antes de entrar na festa."

Ainda teve mais uns 3 ou 4 depois disso no CTG HERMÉTICO, mas aí acho que nem conta...

3) Qual a impressão dos jovens acerca dos donos da bagaça?

Cara, eu não lembro direito porque nessa época fumava MUITA maconha e bebia MUITO, mas lembro que volta e meia alguém vinha com um papo de que achava que a gente era ROUBADO. Eu sempre tava pouco me fudendo porque os bailões davam grana e eu tava acostumado a entrar SEMPRE de graça, não importando que noite fosse. Então acreditava na lei da compensação. Mas em geral não havia maiores tretas. Lembro que BEM no começo, nas duas ou três primeiras edições, rolava uma sensação de "nós não somos bem vindos aqui", mas aos poucos isso foi se apagando. Às vezes alguém se exaltava e falava alguma merda nessa linha do "esses caras tão nos roubando" ou "esses caras não gostam de nós, só nos mantém lá por causa da grana que a gente dá", mas eu nunca dei muita bola de qualquer jeito. Eu gostava pra caralho do Garagem, e sabia que mesmo que isso tudo fosse verdade, ao longo do tempo certamente reverteria o quadro com paciência e camaradagem.

Ah, e agora lembrei que tinha um papo que meio que confirmava que a gente era odiado porque NUNCA ganhou o GARAGITO.

4) Caso(s) folclórico(s).

Puta merda, aí é foda. Muita coisa. Mas pra dar um temperinho, teve a primeira noite, uma segunda-feira chuvosa que acabou com uma jam session bizarríssima com umas 30 pessoas cantando THE DOORS no chão. O Carlinhos Carneiro diz que a música "Spaceball", da Bidê ou Balde, foi inspirada nessa noite. Ele era um dos que cantava. Outra coisa muito folclórica que rolava é que TODO Bailão a gente chegava e ficava comentando "putamerda, hoje não vai vir ninguém". Meia noite e ninguém. Uma hora e ninguém. Aí todo mundo começava a beber e se chapar e quando via PUF: o lugar tava atrolhado. Isso foi muito verdade no segundo bailão, quando o troço realmente BOMBOU. Mais um caso: no Pior Bailão do COL, eram mais de duas da manhã e ninguém tinha aparecido, mas de repente, do nada, deu um BOOM de pessoas e o troço ficou RUIM de tão lotado. Então, eis que FALTOU luz, 30% do público vazou e quando a luz voltou tava todo mundo MUITO bebaço, o Drégus começou a tocar aquelas coisas BREGA e outros 50% do público fugiram. Grande festa. Também teve o lance da caixa de som que caiu na cabeça duma mina, do primeiro show do Tony da Gatorra em Porto Alegre, do sarau de literatura (putaria) com distribuição de livros da L&PM, as pauleiras da Clarah com o Zanella, e uma porrada de coisa que rolou naqueles banheiros que eu, sinceramente, gostaria de lembrar.

Acho que é isso. Qualquer coisa, prende um grito.

Abraço,

André Czarnobai.

19.5.09

Depois de meses servindo como mural de flyers, este blog volta à atividade. Se ainda resta algum leitor por aí, que me desculpe.
A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE
Capítulo 24 - Os porteiros da percepção

Os porteiros se acham as pessoas mais importantes num bar, mas isso eu não acho, eu tenho certeza. Na vanguarda do pelotão, linha que separa o dentro/fora de uma festa sensacional, o porteiro é um espelho do estabelecimento pra qual trabalha. Ele é o rei disfarçado de peão no tabuleiro quadriculado do nightlife. Ele é o cara. Porque as aparências desenganam: porteiro escroto é igual a bar escroto (ok, já tivemos alguns porteiros escrotos, ter bar é humano).

O primeiro foi o Padeiro, isso lá por 93 (o Ricardo diz que houve outro, mas a memória me sabota completamente, um motoqueiro de um metro e meio, amigo do Marcos, foi contratado pra trabalhar na inauguração mas acabou fugindo no meio da noite, apavorado com a fauna). O Padeiro apareceu num show do Red Hot Chili Peppers Cover (de quinta), bermudão, bonezinho, como quem chega (e chega) da Matias. Matias Velho, land of the brave. Ele e mais duzentos garotos do subúrbio, delirando com o Red Hot Cover de quinta. Na quinta, de surpresa. Nunca poderíamos imaginar que um showzeco daqueles fosse dar tanto movimento. O Marcos viu esse mulato (um guri, 17 anos) e perguntou:

Quer um emprego?

Até então só havia o bilheteiro, um qualquer contratado pelas bandas pra cobrar entrada na porta, sem vínculos empregatícios. Mas naquela quinta-surpresa, duzentos neguinhos delirando com o Red Hot Cover de quinta (tem gosto pra tudo), o bilheteiro não foi suficiente. Precisávamos de alguém pra ajudar a conter a manada em descontrole, fortinho de preferência. E prontamente o Padeiro já saiu dando porrada num carinha que acendia um baseado. Porteiro, segurança, barman, guarda-costas, aviãozinho, pau-pra-toda-obra, Padeiro, ao nosso dispor.

Além de garantir uns trocos, o guri passou a ter acesso a um mundo completamente novo. Entrou em contato com uma realidade diferente do cenário de Velho Oeste da Matias com o qual estava habituado. Conheceu uma gente meio louca que tocava em bandas, escrevia histórias em quadrinhos, tirava fotografias, pintava quadros, gente do tipo artista, inquieta, egocêntrica e inconformada. Mais importante: o Padeiro passou a ouvir música, muita música. A música salva, me disse uma vez. E explicou: não tivesse nos conhecido, provavelmente já estaria no crime, seduzido pela vida de gangsta do tráfico, enrabado numa sela de presídio ou morto, quem sabe, num tiroteio ao nascer do sol, o chão batido da vila dando o tom de Velho Oeste na terra sem lei dos sem perspectivas. Sempre perguntava que música estava tocando e pedia pra ver as capas dos discos. Era ligadíssimo na minha coleção de funk e eu gostava de explicar quem eram Stevie Wonder, James Brown, Marvin Gaye, George Clinton, Curtis Mayfield, Isaac Hayes, Sly Stone. Enxergava nele o talento do mestre de cerimônias, além de uma enorme musicalidade (será esse o tal do pé na África?). O cara era um músico natural, cheio de ritmo e com um alcance vocal poderoso. Mais tarde foi um dos integrantes da Urro, um combo de samba-funk-rock-batucada, umas das tantas promessas não cumpridas entre toda uma geração de bandas bacanas daquela década perdida. Também foi percussionista no grupo de rap Da Guedes.

Comia todas as galzinhas que caíam no seu papinho de gigolô. Principalmente quando a gente fechava o bar e ele ficava lá, esperando o primeiro trem pra Canoas. Mas a vida de fama, sexo e drogas de porteiro ronquenrol causou uma transformação em sua personalidade. Subiu pra cabeça, como se diz por aí. Passou a viver rodeado de um séquito de puxa-sacos que lhe babavam os ovos visando entrada liberada, ceva fiada ou outros mimos. Os seguranças do segurança. Protegido, vivia armando confusão, confiante que ao menor indício de revide sua gangue lhe daria cobertura. Um poder paralelo, tirano e arbitrário, agindo nas entranhas do sistema. Brigas passaram a ser comuns e quando a gente ia averiguar o que estava acontecendo, lá estava a gangue do Padeiro linchando algum pobre coitado.

O que ele fez?

Nem lembro, mas mereceu.

Com o tempo começamos a sacar que ele era o agente provocador de TODAS as brigas que, de repente, tinham se tornado freqüentes. A razão dos nossos problemas.

Até que, a gota d’água:

Eu esperava a entrega das bebidas, quando ouvi um burburinho vindo da rua. Saí pra ver do que se tratava e me deparei com uma pequena parada do Orgulho Gay acampada na frente do bar, às seis da tarde de uma segunda-feira. Cinco ou seis pessoas, todas GLS (gays, lésbicas e suspeitas), gritavam frases de ordem, ameaçando chamar a polícia, entrar com processo, mandar prender, matar, castrar. Vizinhos apareciam nas janelas e o trânsito era interrompido pelos curiosos que paravam pra ver o bafão. Abri o portão e pedi que entrassem.

O que houve, minha gente?

A líder do grupo, uma bichinha magricela com um cachecol enrolado no pescoço, tomou a palavra. Integrantes de uma associação em defesa dos direitos dos homossexuais, eles vinham comunicar que estavam entrando na justiça contra o proprietário do bar. Logo eu, que todo mundo tirava pra viado. E então a bicha-líder contou o ocorrido:

O porteiro de vocês espancou duas colegas do movimento no último sábado.

Como assim? O Padeiro podia ser um encrenqueiro profissional, mas agredir mulheres...

E lá no fundinho do cérebro eu já sabia que ele era perfeitamente capaz de cometer uma estupidez dessas.

Deve ser algum mal-entendido.

Tentei me desculpar, já abrindo umas cervejas. Não sei como consegui dissuadi-los(as) de levar a ação adiante. Ceva e um pouco de charme, talvez.

À noite, quando o Padeiro chegou pra trabalhar, intimei o filha-da-mãe:

E essa merda do sábado passado com as sapatinhas?

Depois de negar veementemente por alguns segundos, acabou confessando:

Não me deixaram beijar junto, porra.

*

Depois veio o Bigode. Trazia no currículo uma temporada no Ocidente como porteiro do grande bunker da resistência festiva da cidade. Era um coroa magrelo que, nem precisaria dizer, usava bigode. Digo porque era realmente um bigode digno de nota: vasto, tipo Olívio Dutra, com longos fios grisalhos cobrindo a boca. Por trás da bigodeira, tinha um único dente, um incisivo solitário na arcada superior que aparecia sempre que o Bigode ria.

Da passagem do Bigode pelo bar, lembro do desfecho, quando quis nos achacar uma grana a título de rescisão de contrato, que nem havia, tudo no fio do, perdão, bigode. E também de um episódio ocorrido numa daquelas noites vazias de quartas-feiras cinzentas. Bigode, Dj Shufle e eu, e uns parcos gatos pingados que apareciam feito assombração, vagando na noite fria e desalmada daquelas quartas geladas de agosto. O tédio comendo solto quando pinta o Johnny com seu cabelinho Ramone, calça apertada, tênis All Star, jaquetinha, camiseta justa, serviço completo, barba, cabelinho e o Bigode, na portaria, liberou a entrada do cara.

Querendo agradar, o Johnny me ofereceu drogas. Era uma sacola de supermercado com um punhado de maconha, um embrulho que bem apertado ficava do tamanho de uma bola de tênis. Nunca se sabe, pode servir pra alguma coisa. Pensei enquanto colocava o pacote no bolso do casaco.

A noite transcorreu longa e tediosa até que chegou a hora de fechar. O Johnny era o único dos poucos (dois) clientes que ainda restava, aguerrido. Ofereci uma saideira pra ele enquanto dividia o butim com o Bigode, só uns trocadinhos. Saímos os três na noite fria quando, subindo a Barros, fomos surpreendidos por uma viatura da Brigada que descia a rua na contramão, sirene gritando e farol alto na cara. Parou na nossa frente e dela desceram dois policiais, armados. Acostumado com o procedimento, abri as pernas e encostei as mãos na cabeça, de frente pro muro. Eu estava cool, nada a temer, a não ser, é claro, a bola de tênis de maconha no bolso do meu...

OH MY GAWD!

O suor começou a brotar gelado nos poros do rosto enquanto eu via com o canto do olho o policial se aproximando. Tudo num ponto de vista de lente grande angular tipo clipe dos Beastie Boys. O outro apontava a arma em nossa direção e, ao fundo, a viatura piscava estacionada na contramão, portas abertas, sirene ligada. Dominado pelo pavor, fechei os olhos. Um longo meio minuto passou e, bruscamente, senti as mãos apalpando meu corpo. Logo depois, abri os olhos e o tira já revistava o Bigode. Ileso, eu tinha escapado ileso. Estava tão feliz que agradeci:

Muito obrigado, seu guarda.

Circulando!

Ordenou antes de voltar pra viatura. O outro ainda apontava a arma em nossa direção. Corremos de volta pro bar e eles desceram a rua na contramão, luzes piscando e a sirene ligada. Pela primeira vez depois do atraque, olhei pro Bigode e pro Johnny. Notei o mesmo suor frio que molhava as caras-de-pau em expressão de gratidão, exatamente iguais à minha. Foi aí que o Johnny tirou da cueca uma bucha de cocaína do tamanho de uma bola de golfe e o Bigode levantou o blusão e mostrou um revólver enfiado no cinto:

É roubada, não tem registro.

Reparei que a arma parecia embutida na barriga de faquir do Bigode, plugada dentro do abdome magro, como se fossem uma coisa só: Bigode e arma. Três figuras suspeitas, vagando na calada da noite, drogas e uma arma ilegal, e o tira não descobriu nada. Têm coisas pras quais não há explicação. Pras demais existe Visa Electron.


*


Teve também o Carlão.

O Carlão era uma massa compacta de músculos envolta em pele preta, forjada por horas e horas de muita puxação de ferro. Um pequeno touro negro, espremido no uniforme da Brigada Militar. Uma vez apareceu durante uma passagem de som pra saber se trabalharia à noite. Uma escapadinha da ronda e lá estava ele, trajado de PM, arma e cassetete na cintura, aparição tenebrosa no fumacê provocado pelos músicos que queimavam um baseado gigante e quase enfartaram com a visão daquele PM monstruoso adentrando o recinto. O Carlão nunca sabia dizer qual era a atração da noite e também era incapaz de cobrar uma entrada porque não conseguia estabelecer diálogo com outros seres humanos (com a gente ele conseguia, mas aí vai do retardamento mútuo). Em compensação, em se tratando de apartar brigas e expulsar bêbados, o Carlão era doutor. A estrutura corporal de pequena fera não impediu que fosse roubado. Numa noite, um sujeito grudou uma arma na cabeça do Carlão e pediu o dinheiro da bilheteria. Como o Carlão não lidava com cifras, o assaltante levou a única coisa que tinha pra levar dele: a arma, que, aliás, era da Brigada. Não me perguntem como o Carlão explicou isso no quartel.


*


A maior característica do Marcão (que também era negro, forte e PM) era a aversão por pessoas da mídia, pop stars de bairro, artistas malditos e demais egocêntricos. Bastava um, digamos, formador de opinião (qualquer que seja) soltar na porta a clássica sabe com quem tá falando que o Marcão virava fera.

Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.

E cobrava, mesmo que o nome estivesse na lista. Uma vez o Marcão se envolveu num conflito com a Bia Werther. Cineasta-agitadora-barraqueira de antologia, a Bia tinha uma banda com nosso ex-sócio, o Marcos: Academias Chiquérrimas, que, nas internas, a gente chamava de Acadebias Chiquérrimas. Gravitando em torno da Bia estava seu marido Angrés, um sujeito completamente aloprado, que, entre outras tantas atividades típicas de maluco, era músico, cineasta, míope e voraz comedor de Elma Chips. O casal era proprietário do Megazine, um bar que a gente freqüentava quando não estava no nosso próprio. As duas características marcantes do Megazine eram: 1) a decoração bacana com direito a sofá vermelho em forma de feijão, mesas e cadeiras retorcidas de ferro soldado e pinturas abstratas nas paredes, e 2) o mau cheiro que exalava de um determinado ralo na salinha do meio, o cheirinho clássico do Megazine. Vi grandes pocket shows naquele bar, artistas emblemáticos desse tal de rock gaúcho, entre os quais Júpiter Maçã, Edu K e Os Marmanjados, dupla formada pelos integrantes da Graforréia Xilarmônica, Frank Jorge e Alexandre Birck, na época, Ograndi. Pois o Marcão também era porteiro do Megazine. Quando a gente não abria o bar, ele fazia uns bicos por lá. Até a noite em que, por motivo que nunca perguntei, se desentendeu com a Bia.

Na primeira oportunidade, revidou. A Bia chegou no Garagem e o Marcão exerceu seu poderzinho:

Paga.

Emputecida, ela disse alguma coisa que o deixou louco. Sem pensar, o Marcão torceu o braço dela.

E aí foi tipo Davi contra Golias porque a mulher fez um estardalhaço tamanho, ameaçando mandar prender, matar, castrar, gritedo, histeria, tanta confusão, que fomos obrigados a dispensar o Marcão. Quem mandou.

Próximo!


*


Fechando a trilogia. O Paulão era negro mas não era PM. Grande, como o ão já sugere. Dono de um sorriso reconfortante, daqueles que te fazem acreditar na raça humana. Morava numa pensão decadente na Independência, num sobrado de azulejos portugueses encardidos, climão de sordidez brabo. Adorava jogar conversa fora, tinha um jeito pausado de falar, verdadeiramente cool, além de opinião a respeito de qualquer assunto. Diferente da grande maioria dos chatos, era um bom ouvinte. Agradável interlocutor pras noites tediosas de quarta, aquelas frias e desalmadas quartas de agosto.

Mas por abrir a boca quando não devia o Paulão se meteu em confusão. Tinha esse sujeito o Luca, jeitão de mafioso italiano, cabelo encrespado, jaqueta de couro e uma moto enorme (que eu nunca saberia dizer a marca ou as cilindradas ou qualquer outra característica além de: enorme) que ele deixava estacionada na frente do bar. Muitos diziam que o Luca era traficante, mas eu não ponho minha mão no fogo por ninguém. Numa noite movimentada de final de semana o Luca apareceu acompanhado de uma gatinha nova. Estacionou na frente do portão e, querendo impressionar a guria, pediu pro Paulão cuidar da motoca.

Vê se te enxerga traficantezinho, o Paulão respondeu, cheio de si.

Se o Luca era mesmo traficante, ele não gostava de ser tratado no diminutivo. Não era grande ou musculoso e muito menos aparentava a força que provou ter. O certo é que a resposta do Paulão deixou o sujeito possuído por forças sobrenaturais. Partiu pra cima do segurança, que era no mínimo três vezes maior que ele, com uma ferocidade inacreditável. Logo alguém foi bater na porta do escritório dizendo que o segurança estava tomando um pau na portaria e cheguei a tempo de ver o Paulão acuado num canto como um gatinho indefeso enquanto o Luca girava em torno de si distribuindo pontapés. A turma do deixa-disso entrou em ação, foi preciso um bando pra segurar o Luca enfurecido. Subiu na moto com a namorada e nunca mais aparecer no bar. O Paulão seguiu trabalhando com a gente por mais um tempo, mas desde o momento em que vi o olhar de bichinho indefeso grotescamente desenhado naquele homem enorme, soube que ele não duraria muito, estava desmoralizado, nunca mais se imporia diante da turba bêbada. Ainda o encontrei algumas vezes, em frente à pensão da Independência, sempre com aquele sorriso generoso e o bom papo. Recentemente um amigo contou que pegou um táxi e tomou um susto ao notar que o motorista era o Paulão. Teve um flashback instantâneo e quase deu o endereço do bar.

*

Finalmente o Ninja veio trabalhar com a gente. Logo depois o pai dele, o Seu Jorge, se juntou ao time. Ninja, um garotão calado e bonito de feições orientais, acabou desistindo do emprego depois da apavorante Noite das Garrafadas, conforme detalhado no capítulo homônimo. E assim o Seu Jorge se tornou o derradeiro porteiro do Garagem. Na sabedoria de seus 50 anos de vida vivida, jamais precisou bater em alguém ou se envolver em agressões pra que a mínima ordem requerida fosse cumprida no recinto. Era afetuoso e educado, e impunha respeito com docilidade. O velho Jorge, com 30 anos de diferença da maioria de nós, também era um sujeito tolerante e muito menos ingênuo que a aparência de olhar simplório e a fala de língua presa poderiam fazer crer. Jamais manifestou reprovação ou preconceito diante dos nossos comportamento e hábitos, mesmo os mais heterodoxos – ou ortodoxos, questão de ponto de vista.

Na semana de eventos que marcou nossa despedida, alguns dias depois da venda, houve uma festa em homenagem ao clássico porteiro, bem no dia de seu aniversário, com show d’Os Torto e os Alcalóides, discotecagem punk e a presença do aniversariante na maior elegância, em terno e gravata, recebendo os convivas no portão.

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